| As gangues constituem-se num problema social pouco ou nada discutido no âmbito institucional e social. Na tentativa de fornecer alguns elementos para a reflexão e compreensão desse problema este texto tem o fito de desencadear uma discussão a partir das seguintes questões: O que é gangue? Quais as suas principais característica? Sua origem está na pobreza? Que conseqüências esses agrupamentos sociais trazem aos seus membros e à sociedade? Por que é considerado um problema em nossa sociedade? O que é gangue? O termo gangue é a versão em português da palavra inglesa gang que significa: turma, grupo, patota. Sociologicamente, os três significados evocam a idéia de grupo. O conceito de grupo social (1) é de relevante importância para a leitura desse problema enquanto um fato social (2). Segundo a Wikipédia (a enciclopédia livre), “Historicamente o termo refere-se tanto à grupos criminosos como grupos de pessoas comuns. Alguns antropólogos acreditam que esta estrutura, a gangue, é uma das formas mais antigas de organização humana. Alguns interlocutores usam a palavra gangue para referir-se às pequenas, informais e desorganizadas ""gangues de rua"", enquanto sindicato ou crime organizado são usados para referir-se à maiores e mais poderosas organizações, como a Máfia italo-americana.” Ademais, é importante observar que a palavra gangue no geral é utilizada em contextos pejorativos, com exceção na nomeação de alguns grupos de manifestaçãoes artisticas ou culturais como, por exemplo, o grupo musical Gang do Samba ou os grupos de B.Boy que dançam street dance (hip hop). Apesar disso, membros de grupos de adolescentes ou jovens e adultos jovens às vezes adotam esse termo numa forma de orgulho de identidade ou intimidação. Buscando uma definição inicial podemos dizer que gangue é um grupo social composto por pessoas ou indivíduos que associados compartilham de uma identidade comum com o mínimo de estabilidade. Quais as principais características das gangues? Os membros das gangues interagem através de trocas simbólicas ou linguagens multivariadas (corporal, visual, verbal, musical e gestual), cujo o canal principal é a violência (3). Buscando cartografar essas linguagens ou simbolos é possível perceber que esses sujeitos sociais geralmente compartilham elementos representativos como as assinaturas (grafites e pinchações), demarcações de lugares(4), expressões verbais particulares (gírias), tatuagens, vestimentas, gosto musical, horários de circulação e encontros intergrupais em lugares determinados, etc. Assim podemos destacar como características principais das gangues os seguintes elementos: • No geral, as gangues são formadas por pessoas que são provenientes de estratos sociais socioeconômicos semelhantes; • Pertencem a um grupo etário semelhantes; • Habitam a mesma região geográfica; • Possuem líderes; • A maioria se identifica com ações violentas ou com uma determinada ideologia (5). A origem das gangues está na pobreza? Com a pobreza e o abandono institucional, os bairros, as vilas e as favelas com diversas precariedades são fontes e ao mesmo tempo vítimas das gangues. Nesses lugares, onde existe pouco ou nenhum aporte comunitário ou mecanismos de promoção social, transformam-se em palco privilégiado para a instalação de situações de rísco, como grupos organizados para o tráfico e uso de drogas, gerando ansiedade e medo na população local, traduzida pelo “sentimento de insegurança”, que contribui para a (re)produção de diversas outras formas de violências. Segundo Morais, “Como se percebe, a ansiedade e o medo resultam do sentimento de impotência, de fragilidade. Ora, o ser humano cheio de aspirações e sem nenhum poder de realizá-las, torna-se, de uma ou de outra forma, violento. Torna-se hostil. E, quanto mais impotente, maior será a brutalidade de sua violência. Corriqueiramente as autoridades políciais e os meios de comunicação costumam veicular a informação de que na periferia ou nos bairros pobres dos centros urbanos são os lugares onde a violência “é mais crua e deflagrada”. Mas, isso não quer dizer que as pessoas pobres nascem violentas. Siginifica, “que o grau de impotência que lhes foi imposto acua-os de tal forma que, em certos momentos, só os atos de violência se apresentam como alternativa de liberação e sobrevivência”. Mas o que dizer dos Skinheads, dos pitboys, dos grupos de extermínmio que atuam em grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo? Os dois primeiros grupos são geralmente formados por pessoas onde a maioria são jovens de classe média alta e os últimos são agentes do estado que reproduzem ideologias, por exemplo, homofóbicas, racístas e higenistas que vitimizam diariamente no país e mundo milhares de pessoas (homossexuais, negros, nordestinos, pessoas pobres, moradores de rua, etc.). Esse fato, por exemplo, mostra que não é possível compreender ou explicar este problema social de forma simplista. É preciso entender que sua causa e multifatorial e o aspecto estrutural (desiguadade social e pobreza) ou psicolóligoco (privação) são apenas dois aspectos dessa realidade. Segundo Soares, Bill, Athayde “a violência se aprende, como se aprende a praticar e orientar-se para a paz”, mas chama atenção ao fato de que também existe uma raiz biológica para a violênia ao dizer que o cientista Konrad Lorenz “já nos ensinara que o ser humano é o animal mais violento, no âmbito intra-específico – ou seja, com a própria espécie”. Ainda afirma que “duas característica distinguem o humano: a linguagem e a crueldade”. Sendo inegável, portanto, essa base biológica que eclode “quando o ânimo ferve e o ódio escorre, torrencialmente, impregnando os sentidos, obliterando o juízo, cegando a razão, até derramar-se sobe a forma de violência”. Que consequências esses grupos sociais trazem para seus membros e à sociedade? O que resta é o terrorrismo, o pânico, a privação de liberdade e a morte prematura de muitos jovens. Estas são algumas das consequências que as gangues vêm operando em vários lugares do país e do mundo. Mas é importande ressaltar que os meios de comunicação, ao tratar da questão de forma sensacionalista, tem gerado uma sensação generalizada de que a origem da violência está nas gangues formadas por adolescentes e jovens e escamoteia suas verdadeiras causas e faces. Na cidade de Teresina, as gangues segue em expansão principalmente nas áreas onde se concentra as populações menos favorecidas sócio-economicamente, mas nem todos os delitos que ocorrem, nessas regiões, são realizados pelas gangues. Na folha especial do jornal “O Dia”, em alusão aos 150 anos de Teresina, foi divulgado que a polícia havia mapeado um total de 19 gangues distribuidas em todas as zonas da cidade, sendo a maior concentração na zona norte com 11, seguida da zona sul com 05 e zonal leste com 03. Segundo Fonseca Neto, professor de Historia da Universidade Federal do Piauí, em nota no jornal supracitado, afirma que as “gangues já se constituem numa espécie de poder paralelo na cidade, capazes de impor a mudança de residência de parte das famílias de certas áreas”. Qual a solução para esse problema? Quanto ao enfrentamento da dessa problematica, o poder público tem-se mostrado mais preocupado em criar ou endurecer as leis, do que reduzir as condições de abandono e marginalidade de muitas comunidades, através de políticas públicas (saúde, educação, lazer, cultura, profissionalização, geração de renda, etc.) que possibilitem mudanças significativas no contexto social dos jovens, dotando-os de habilidades e oportunidades que facilite sua integração. Ao mesmo tempo é preciso investir na humanização dos agentes público que atuam no campo da segurança pública. Ademais, é preciso construir um ciclo de integração de habilidades, de linguagem e de comunicação capaz de propiciar caminhos para a resolução pacífica de conflitos. E que também sejam o sustentáculo para a criação de estruturas sociais que possam servir equitativamente a todos os cidadãos. Teresina, 28 de fevereiro de 2007. Notas 1. Grupo social: expressão sociológica que significa “reunião de duas ou mais pessoas associadas pela interação social, capaz de manter uma organização e ações conjuntas para alcançar objetivos comuns a todos os seus membros”. 2. Fato social: segundo o sociólogo francês Emile Durkheim, “fato social é toda maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou ainda, toda maneira de fazer que é geral na estensão de uma sociedade dada e, ao mesmo tempo, possui uma existência própria, independente de suas manifestações individuais”. 3. Violência: “fenômeno gerado nos processos sociais que leva as pessoas, grupos, instituições e sociedades a se agredirem mutuamente, a se dominarem, a tomarem à força a vida, o psiquismo, os bens e/ou o patrimônio alheio”. 4. Lugar: “ espaço apropriado” ou “espaço delimitado como território” 5. Ideologia: conjunto de idéias que explicam e caracterizam um sistema de pesnamento particular de um determinado grupo e que orienta a sua forma de ver o mundo. *Professor de sociologia e filosofia da rede estadual de ensino público. Educador Social de Rua/SEMTCAS/Ação Social Arquidiocesana. PALAVRA-CHAVES: Gangues, violência, lugar, ideologia, fato social. |