| Historicamente a concepção e a pauta do movimento feminista no Brasil se constituíram a partir das discussões que envolvem as desigualdades e conflitos entre os gêneros, anunciados pela mulher branca ocidental (européia). No entanto, essa questão no nosso país ganha uma nova tônica a partir da introdução da discussão da relação entre gênero e raça/etnia que trouxe à tona os conflitos intragêneros, que até pouco tempo atrás permaneciam sufocados sob o discurso hegemônico da concepção feminista eurocêntrica. Hoje não é difícil de perceber o quanto pesa as relações desiguais entre homens e mulheres no Brasil, sejam no acesso à educação, aos melhores postos de trabalhos ou aos melhores salários. E quando se envolve a questão raça/etnia essas desigualdades se intensificam ainda mais - ficando para as pessoas brancas as melhores posições sociais. No entanto, essas duas questões (Gênero e Raça/etnia) envolvem uma terceira que é o gênero subalterno, segundo o qual os homens negros em relação às mulheres brancas apresentam prestigio social menor quando o assunto é status social. Sobre esse aspecto o movimento das mulheres negras introduziu uma nova pauta de discussão que até então se encontrava negligenciada pelo movimento feminista brasileiro, as relações étnico-raciais. Isso marcou definitivamente o processo de enegrecimento do feminismo. Esse processo de enegrecimento do feminismo, como supõe Sueli Carneiro em seu texto Mulheres em movimento, é resultado de um processo dialético que de um lado, promove, de outro exige o reconhecimento da diversidade e desigualdade existente entre essas mesmas mulheres e a afirmação das mulheres em geral como novos sujeitos políticos, ao mesmo tempo em que exige o reconhecimento da diversidade e desigualdade existentes entre essas mesmas mulheres. Como a afirmação da identidade passa pelo reconhecimento da diversidade (mulher índia, branca, nordestina, deficiente etc.), o que não significa a existência de uma solidariedade racial intragênero, à mulher negra teve que encarar dificuldades dentro do movimento feminista advindas das contradições, desigualdades, obstáculos oriundos do racismo, discriminação racial e gênero. Além dessas questões destacam-se as dificuldades de acesso ao mercado de trabalho, direito à saúde e aos meios de comunicação etc. O marco que anunciou um novo momento para o movimento de mulheres negras - enquanto resultado concreto - foi a incorporação de maior parte de sua agenda de luta na Constituição de 1988. Concretamente o resultado dessa luta vem se plasmando através da estruturação dos Conselhos de Direitos, Delegacias Especializadas no Atendimento às Mulheres e Políticas Públicas de Promoção à Saúde da Mulher dentre outros. Apesar das dificuldades enfrentadas pelo movimento de mulheres negras no Brasil, seu grito estremeceu as barreiras da exclusão e abriu portas para a liberdade e resgate da sua humanidade, além de introduzir o reposicionamento de concepções e posturas políticas, que contribuíram para o movimento feminista brasileiro se repensar como protagonista na construção de uma sociedade mais democrática, a partir do reconhecimento dos conflitos internos deste segmento no processo de reconhecimento das diferenças intragênero Antônio Francisco Ramos é formado em Ciências Sociais e especialista em Psicologia da Educação pela UFPI. Atualmente é membro da Equipe de Estudos Estratégicos e Análise de Indicadores Educacionais/UPLAN/SEDUC-PI e representante da SEDUC no Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente.
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